Bidspirit auction | Lusitano, Vieira [Matos, Francisco Vieira


Lusitano, Vieira [Matos, Francisco Vieira de] - O INSIGNE PINTOR, E LEAL ESPOSO VIEIRA LUSITANO, HISTORIA VERDADEIRA, QUE ELLE ESCREVE EM CANTOS LYRICOS, &c. Lisboa. Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno. 1780. (6) - 623 (1) pp. 14,5 cm x 9,5 cm. E. - 1.ª e única edição deste celebérrimo poema de Francisco Vieira de Matos (1699 —1783), glória da pintura portuguesa de todos os tempos, que ficaria conhecido para a posteridade como Vieira Lusitano. Nestes versos, o pintor reflecte sobre a sua vida e carreira e, sobretudo, sobre a sua grande história de amor surgida na infância com D. Ignes Helena de Lima e Mello e que os levaria ao altar muitos anos depois. O casamento, feito à revelia paterna, levou também a noiva ao convento de Sant'Anna, e, de acordo com Vieira de Matos, à sua tentativa de assassinato pelo irmão a mando dos pais, após uma fuga de Ignes travestida perante os olhos da abadessa, num episódio digno de cinema de um dos romances mais enternecedores da nossa história — e que só os génios conseguem transformar em grande arte. Possui uma gravura oposta à portada baseada num auto-retrato em que o pintor, contristado, com Cruz de Santiago ao peito, e em pose e restante iconografia de grande erudição humanista — apontando já os caminhos do neo-classicismo —, segura um retrato da sua amada esposa falecida havia cinco anos; conquanto quem abriu a gravura não conseguiu fazer jus à grande arte de Vieira de Matos... Esta mesma gravura possuiu uma outra variante com a dolorosa legenda: «Bella Ignes o teu Francisco // sem ti naõ pode ter paz // pede a Deos que elle comtigo // lá vá estar onde tu estas.», tendo sido bastante reproduzida na época. Innocencio diz-nos que os críticos não acharam grande rasgo lírico no poema de Matos, afirmando «que se póde ser mui fervoroso amante, sem ter o menor vislumbre de genio poético»; mas é inegável que o próprio patrono dos bibliófilos portugueses ficou sensibilizado com a sua leitura, porquanto acrescenta: «todavia não deixa de offerecer tal qual interesse, pelo menos aos amadores da arte; pois contém narrados com singela individuação, e com a maior fidelidade os progressos do auctor na pintura, e a descripção das differentes obras por elle executadas.» A obra foi dedicada ao 3.º conde de Povolide, administrador colonial e Presidente do Senado da Câmara de Lisboa, para quem Matos pintou, aparentemente, muitos quadros. Como curiosidade, Vieira Lusitano figura num dos episódios do romance histórico  De Genere  (Snob, 2021), escrito pelo gerente da ANNO e redactor deste mesmo verbete ad perpetuam memoriam insignis pictoris et poetæ Lusitani. A fim de que ſe me ouvirem De amor alguns prizioneiros, Deſtes Prototypos dignos A ſer conſtantes aprendaõ Delles a celebre Hiſtoria Relatar toda pertendo Deſde o principio, pois della Inteiramente me lembro. (...) Da Lyra tua hum reflexo Baſtará, que me concedas, Para que eu ache o caminho Entre as confuſas varedas. E da devida grinalda, Em eu chegando á palmeira, Junto do teu domicilio, Satisfarei a promeſſa. Encadernação coeva em carneira com lombada ornada a ferros dourados; bastante cansada. Corte inteiro carminado, ainda que esvanecido. Restauro antigo com fita cola no anverso da gravura de abertura. Folha de rosto com minúscula falha de suporte no canto superior direito. Interior limpo. Innocencio, T. III, 1911, p. 79-80.