Bidspirit auction | [EXORCISMO; BRUXARIA] Maria, Joseph de


[EXORCISMO; BRUXARIA] Maria, Joseph de Jesus - BROGNOLO RECOPLIADO, E SUBSTANCIADO COM ADDICTAMENTOS DE GRAVISSIMO AUTHORES, &c. Coimbra. Na Offic. de Joseph Antunes da Sylva. 1727. (24) 334 pp. 14,5 cm x 10,5 cm. E. - Maria, Joseph de Jesus - BROGNOLO RECOPLIADO, E SUBSTANCIADO COM ADDICTAMENTOS DE GRAVISSIMO AUTHORES. METHODO MAIS BREVE, MUY SUAVE, E UTILISSIMO DE EXORCIZAR, EXPELINDO DEMONIOS, E DESFAZENDO FEYTIÇOS: SEGUNDO OS DICTAMES DO SAGRADO EVANGELHO, &c. Coimbra. Na Offic. de Joseph Antunes da Sylva. 1727. (24) 334 pp. 14,5 cm x 10,5 cm. E. Primeira edição portuguesa do tratado exorcístico de Cândido Brognolo (1607 - 1677), vertido e recompilado por Fr. José de Jesus Maria com o declarado propósito de o tornar mais acessível ao clero nacional. Esta versão assume particular relevo no panorama editorial português setecentista, quer pela raridade de manuais dedicados especificamente ao exorcismo, quer pela minúcia com que aborda a fenomenologia atribuída ao feitiço e à possessão. O texto distingue-se pela descrição ampla e diferenciada dos sintomas, contemplando perturbações do equilíbrio dos humores, casos de cegueira súbita, debilidade motora e outros estados mórbidos que noutros tratados são apenas referidos de forma genérica, integrando-os numa leitura médico-moral própria da época. Sublinha-se ainda a ideia de predisposição dos indivíduos dominados pelo humor melancólico enquanto alvos preferenciais de malefícios, bem como a insistência na intimidade supostamente mantida entre as feiticeiras e o Demónio, tópico recorrente na demonologia barroca, e na acção à distância das bruxas mediante objectos depositados na proximidade das vítimas, concebidos como veículos de influência maléfica. Esta edição de Coimbra conheceu uma recepção prática documentada em contextos concretos de exorcismo, em particular nos episódios de possessão ocorridos nos finais da década de 1720 em Campolide (Sartin, 2919), onde foi invocada como autoridade quase exclusiva em matéria de doutrina demonológica. Este facto confere-lhe um valor acrescido enquanto fonte para o estudo das práticas exorcísticas em Portugal, revelando não apenas a dependência de modelos italianos adaptados, mas também a forma como tais manuais eram efectivamente mobilizados no quotidiano pastoral. A obra contribuiu para a cristalização de um modelo de exorcismo formal, articulando discurso teológico, observação semi-clínica e tradição supersticiosa, num equilíbrio que espelha a tensão entre a racionalidade médica emergente dos alvores do Iluminismo e as tradições católicas ancestrais. A presença dos “addictamentos de gravissimos autores” denuncia igualmente o esforço de legitimação erudita do texto, reforçando a sua autoridade junto do clero e favorecendo a sua disseminação em meios conventuais e escolares. Cândido Brognolo foi um franciscano italiano e exorcista reputado, foi autor do influente “Manuale exorcistarum ac parochorum” (1651), compêndio aqui vertido e adaptado por Fr. Joseph de Jesus Maria em língua portuguesa, inicialmente um livro destinado a orientar o clero na distinção entre enfermidades naturais e males de origem demoníaca, bem como na correcta aplicação dos ritos de exorcismo segundo a disciplina da Igreja. A sua obra exerceu larga influência na Europa católica, sendo sucessivamente traduzida, adaptada e ampliada, como testemunha esta rara edição portuguesa. Já o franciscano Fr. Joseph de Jesus Maria, de acordo com Innocencio — que não sinaliza esta obra —, era natural dos Arcos de Valdevez — ainda que o mesmo afirme na folha de rosto que é ”Ullyssiponense” — e professou na sua ordem em 1690, tendo exercido nela o importante cargo de Cronista da mesma. Aparentemente, era um exorcista reputado e faleceu, ao que parece, em 1752. O livro foi dedicado por Fr. Joseph de Jesus Maria a D. Thomas de Almeyda, o primeiro Patriarca de Lisboa, que o convocou para resolver o caso complicado das ”endemoninhadas” de Campolide (Sarin, 2019). Bom estado geral de conservação. Encadernação coeva em pergaminho com título caligrafado. Ex-libris de José Cupertino de Miranda no verso da pasta anterior e outrossim, mais reduzido, no verso da folha de rosto. Desenhos de criança antigos a lápis na folha de guarda; falha de suporte na guarda de fecho. Miolo em muito bom estado. Bom exemplar. Extremamente raro e procurado. Barbosa Machado, 2, 865. Innocencio, T. IV, 379. Sartin, P. D. (2019). “E indo a Carvalho, de la veyo boa”: os exorcismos numa paróquia portuguesa durante o século XVIII. In Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, XXXII.