Bidspirit auction | Pii V [Pio V (Papa)]
Pii V [Pio V (Papa)] - CATECHISMUS, EX DECRETO CONCILII TRIDENTINI, AD PAROCHOS. Romæ. in ædibus Populi Romani, apud Paulum Manutium. 1566. (8) 650 (34) pp. 14 cm x 10 cm. E. - A presente edição, publicada em Roma pelo célebre impressor Paolo Manuzio em 1566, constitui uma das primeiras impressões autorizadas deste importantíssimo livro que ficou conhecido para a posteridade como ”Catechismus Romanus”. Obra fundamental para a história universal, ela é simultaneamente de importância capital para a história da Igreja em Portugal, como se verá adiante. Elaborado por determinação directa da sessão XXIV do Concílio de Trento, este compêndio doutrinário, destinado sobretudo a eclesiásticos, teve como propósito uniformizar a instrução catequética no mundo católico, substituindo o antigo catecismo e definindo em linguagem clara a ortodoxia pós-tridentina. A obra estrutura-se em quatro partes: ”De Symbolo Apostolico”, ”De Sacramentis”, ”De Decalogo” e ”De Oratione Dominica”, articulando exposição teológica com orientações pastorais. Esta edição de 1566 é bibliograficamente complexa: dela conhecem-se duas tiragens princeps , ambas pertencentes ao mesmo acto editorial e com ordem não firmemente estabelecida. A primeira impressão apresenta o texto integral tal como inicialmente composto; a segunda distingue-se por incluir uma reimpressão parcial das 118 primeiras páginas, facto assinalado por Renouard, originando variantes tipográficas iniciais. A que ora a ANNO tem a honra de apresentar a martelo é a raríssima reimpressão do mesmo ano em formato in-8.º. Há características tipográficas curiosas nestes primeiros exemplares neste formato: se, por um lado, a mancha é impressa completamente em belíssimos caracteres itálicos (excepto nos destaques), por outro as capitulares ficaram por executar, à excepção da primeira. Tal pode dever-se a expectativa de ser o comprador a mandar executá-las — como ainda ia sendo habitual à época —; ou a um obrigatório aceleramento da impressão, dada a necessidade da obra ver a luz do dia. O frontispício com as armas de Roma (Senatus Populesque Romanus) e a marca de Paolo Manuzio deixa cair nesta edição o carácter arquitectónico da primeira impressão in-folio. O privilégio pontifício que abre a obra — proibindo rigorosamente qualquer reimpressão não autorizada sob pena de excomunhão («sub excommunicationes latæ sententiæ pœna») — não impediu, porém, que até ao final de 1568 já circulassem numerosas edições e reimpressões noutros quatro países europeus. A obra teve também o privilégio real de Filipe de Espanha e de Nápoles, filho de mãe portuguesa e futuro Filipe I de Portugal. Como manifestação tipográfica, as princeps de Manuzio são obras de grande clareza e rigor que definiriam a impressão europeia doravante, para além de exemplares da prosa eclesiástica e humanística do século XVI e certamente os maiores marcos editoriais da Reforma católica. Paolo Manuzio (1512-1574), herdeiro da tradição aldina e director da Stamperia del Popolo Romano, foi chamado a Roma por Pio IV para executar as principais obras doutrinais e litúrgicas da reforma tridentina. Sob sua direcção, a revisão humanística do texto foi confiada a Giulio Pogiani e Cornelio Amaltei, cabendo ao próprio Manuzio — aliás um excelente latinista — a última intervenção estilística e a responsabilidade da edição. A redacção teológica do catecismo, atribuída pela autoridade conciliar ao cardeal-santo Carlo Borromeo (canonizado em 1610), foi repartida entre o bolseiro de D. João III e delegado do rei D. Sebastião I de Portugal, Fr. Francisco Foreiro (1523 – 1581), Prior do Convento de São Domingos de Lisboa e Provincial da Ordem dos Pregadores em Portugal — e que juntamente com o arcebispo de Braga, Primaz das Hespanhas, Fr. Bartolomeu dos Mártires (canonizado em 2019), também dominicano, foi uma das vozes teologais mais poderosas do Concílio —, Leonardo Marini, arcebispo de Lanciano, e Egidio Foscarari, bispo de Modena. A revisão final foi entregue ao cardeal Guglielmo Sirleto. A importância do Catechismus Romanus foi duradoura: tornou-se a referência catequética fundamental da Igreja latina durante mais de quatro séculos e permanece uma das produções doutrinárias mais influentes do período pós-tridentino. Bom estado geral de conservação. Encadernação fini-seiscentista em pele com lombada nervurada e curiosos ferros; bastante cansada. Corte inteiro carminado, afectando por vezes a muito esparsa marginalia coeva. Miolo em bom estado de conservação, marcadamente impresso em papel sonante e alvo, apanágio da excelência de Manuzio. Ocasionais e muito ténues manchas de humidade. Pico único da traça da pasta anterior até à folha correspondente às pp. 27-28, quase imperceptível quando toca a mancha. Trabalho diminuto do bicho à cabeça e junto ao festo mais visível a partir da p. 604 à p. 646, e no pé, outrossim junto ao festo e diminuto, nas últimas 5 folhas. Últimas duas folhas com muito pequena perda de suporte na margem exterior,