Bidspirit auction | [MANUSCRITO] Rainha Santa, Fr. Simão
[MANUSCRITO] Rainha Santa, Fr. Simão - MEMORIAS DA VIDA DE DOM ANTONIO LUIS DA VEIGA CABRAL DA CAMARA BISPO DE BRAGANÇA E MIRANDA. Roma. 1837. (24) 180 (6). (29 cm x 20 cm. E. - Manuscrito biográfico produzido pelo frade menor Simão da Rainha Santa (1783–1859), frade franciscano, secretário, discípulo e um dos mais fiéis defensores da memória de D. António Luís da Veiga Cabral e Câmara (1758–1819), figura que despertou tanto de culto como de detracção. Como indica na «Advertencia notavel» final, Simão Rainha Santa refere que fez duas copias: uma para entregar ao cardeal Pacca, e outra, «que he ésta», ao Cardeal Fransoni, tendo planeado passá-la em mão em Setembro de 1841. No entanto, tendo regressado a Portugal nesse mesmo anno, o franciscano conseguiu recolher mais informação que, afirma, aqui acrescentou, «por consequencia he mais exacta esta copia, do que a primeira.» A nota, extensa, está datada de 27 de Janeiro de 1844 no Collegio de S. Bartholomeu all'Isola na «Alma Cidade». Os carimbos de posse do Colégio Americano de Roma comprovam que esta cópia esteve efectivamente na Cidade Eterna, desconhecendo-se como regressou à pátria lusa. O biografado, António Luís da Veiga Cabral e Câmara, foi bispo de Bragança-Miranda entre 1793 e 1819 e tornou-se uma das figuras mais controversas da espiritualidade portuguesa do final do século XVIII e inícios da centúria seguinte. À sua volta formou-se um movimento devocional marcado por fenómenos visionários, curas reputadas milagrosas e intensa direcção espiritual de leigos, sobretudo mulheres recolhidas em casas religiosas sob a sua influência. A devoção propagou-se entre sectores da aristocracia lisboeta, alcançando, inclusivamente, ambientes próximos da corte de Carlota Joaquina. As práticas associadas às chamadas “mães” Domingas Vaz e Maria Manuela, tidas como videntes e taumaturgas — das quais a ANNO já levou à praça testemunhos (vide lote AP03LT07 , ainda disponível) —, suscitaram suspeitas de heterodoxia, exagero místico e manipulação espiritual. O movimento foi alvo de processos inquisitoriais na década de 1790 e acabou formalmente censurado pelas autoridades eclesiásticas, nomeadamente pelo Patriarcado de Lisboa. A reputação de D. António dividiu os seus contemporâneos — entre devotos, que o consideravam um homem de dons extraordinários, e os críticos, que o viam como visionário perigoso ou impostor. Após o auge da controvérsia, viveu anos de progressivo afastamento eclesiástico, morrendo ainda bispo titular, mas sob a sombra duradoura do escândalo. Simão da Rainha Santa (1783–1859), frade franciscano, foi o seu secretário pessoal, discípulo e um dos seus mais fiéis seguidores. Tendo privado de perto com o prelado, preservou recordações directas do ambiente espiritual que o rodeava. Já depois das convulsões liberais e da extinção das ordens religiosas, dedicou-se a redigir esta extensa biografia apologética do bispo. O texto, inicialmente composto em italiano e depois vertido para português pelo próprio autor, tinha uma finalidade claramente edificante e visava sustentar uma leitura santificante da figura episcopal que lhe era cara, em contraste com as acusações de fraude e desvario místico que circulavam. A obra de Frei Simão permanece hoje como fonte essencial, embora parcial e devocional, para o estudo do movimento espiritual ligado ao célebre bispo de Bragança-Miranda. Bom estado geral de conservação. Encadernação coeva meia-inglesa com lombada e cantos em pele. Apresenta dois carimbos de posse como descritos supra. Miolo extraordinariamente limpo e com caligrafia de excelência. Peça de colecção. Bibliografia auxiliar: de Sousa, F. (2019). D. António Luís da Veiga Cabral da Câmara Bispo de Bragança e Miranda (1758-1819). Município de Bragança.