Bidspirit auction | [CAMONIANA; PEÇA DE COLECÇÃO; LIBERALISMO]


[CAMONIANA; PEÇA DE COLECÇÃO; LIBERALISMO] [Sarmento, Alexandre Thomaz de Moraes] - RUSSELL DE ALBUQUERQUE, CONTO MORAL POR UM PORTUGUEZ. Cintra [alias Londres]. s.n. 1833. XXI - 336 (2) pp. 17,5 cm x 10 cm. E. - Publicado anonimamente em Londres e não em ”Cintra”, como indicado, este raríssimo e importantíssimo texto de Alexandre Thomaz de Moraes Sarmento inscreve-se na tradição do conto moral e político do primeiro romantismo liberal, articulando ficção narrativa com pedagogia cívica e reflexão histórica. A obra destaca-se pelo modo como reinscreve intertextualmente “Os Lusíadas” do Vate no tecido narrativo, transformando o episódio dos Doze de Inglaterra e a figura do Magriço em eixo simbólico de “nacionalidade”. Durante a viagem de Álvaro de Albuquerque e Herbert Russell ao Douro, a evocação de Ferreirim desencadeia a memória camoniana, e o poema épico surge como “história em verso”, legitimando literariamente um passado cavaleiresco convertido em património moral. O diálogo entre o português e o inglês encena, com subtil ironia, a formação de estereótipos nacionais: para o herói luso, o episódio prova a antiga nobreza e valentia portuguesa; para o interlocutor britânico, o silêncio das crónicas inglesas revela como a memória histórica é moldada por conveniência patriótica. A narrativa expõe assim o mecanismo de selecção simbólica que sustenta identidades colectivas, convertendo o mito cavaleiresco em alegoria política do presente liberal e exilado. A fortuna cultural do Magriço, reactivada no conto, prolonga-se por todo o século XIX, onde o cavaleiro se torna emblema metonímico das virtudes guerreiras, da honra e do respeito pelas mulheres, traços frequentemente projectados como “carácter nacional”. O mito é retomado na poesia, no romance histórico e na imprensa, servindo tanto a exaltação patriótica como a crítica das humilhações contemporâneas, sobretudo no quadro das tensões luso-britânicas ligadas à expansão colonial africana. A literatura romântica portuguesa, ao novelizar o episódio, converte-o em instrumento de automitificação histórica, enquanto traduções e alusões estrangeiras a Camões comprovam a circulação europeia do imaginário camoniano. Em “Russel de Albuquerque”, esta tradição é conscientemente mobilizada: o passado heróico não surge como ornamento erudito, mas como argumento moral e político, propondo uma regeneração ética da pátria através da memória literária. O conto revela, deste modo, como a épica fini-quinhentista é relida à luz das lutas liberais oitocentistas, fundindo exílio, pedagogia moral e imaginação histórica num mesmo gesto narrativo. Alexandre Tomás de Morais Sarmento (1786–1840), geralmente apontado como o autor da obra, foi magistrado, diplomata e par do Reino, figura activa do liberalismo português. Formado em Leis na Universidade de Coimbra, pertenceu à geração marcada pelas invasões francesas e pelas convulsões constitucionais, participando na vida militar e política do seu tempo. Após a derrota liberal de 1828, exilou-se em Londres, onde integrou os círculos políticos emigrados e onde terá redigido esta bela parábola, cuja publicação anónima reflecte prudência num contexto ainda muito instável. Regressado depois da vitória liberal, exerceu funções diplomáticas em Madrid, foi juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e par do Reino, intervindo em matérias ultramarinas, económicas e culturais. A sua intervenção literária, embora rara, revela um grande intelectual atento ao poder formador da ficção histórica e à utilização da tradição épica como instrumento de consciência nacional, fazendo de “Russel de Albuquerque” um elo expressivo entre literatura, política e memória histórica no Portugal oitocentista. Bom estado geral de conservação. Encadernação recente inteira de pele; ligeiramente aparado. Folha de rosto consolidada e com pequena assinatura de posse. Miolo com ténues manchas e picos de acidez. Peça de colecção. Bibliografia auxiliar: Puga, R. M. (2014. Imagologia e Mitos Nacionais. O Episódio dos Doze de Inglaterra na Literatura Portuguesa (c. 1550-1902) e o Nacionalismo (Colonial) de Teophilo Braga. Caleidoscópio.