Bidspirit auction | O CASO MEDICO-LEGAL URBINO DE
O CASO MEDICO-LEGAL URBINO DE FREITAS. Porto. Imprensa Portugueza. 1893. 542 pp. 23 cm x 15 cm. E. - Obra colectiva de quatro peritos forenses portuenses — Agostinho António do Souto, lente da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, J. Pinto de Azevedo, médico-cirurgião e preparador de anatomia na mesma Escola, Manuel Rodrigues da Silva Pinto, igualmente lente da referida Escola, e António Joaquim Ferreira da Silva (1853–1923), lente da Academia Politécnica do Porto — que reúne os relatórios médico-legais, os exames toxicológicos, os documentos e as respostas críticas produzidos pela comissão de peritos responsável pela acusação no célebre processo de envenenamento que abalou a sociedade portuguesa no último quartel do século XIX. A obra surgiu em duas tiragens no mesmo ano de 1893, ambas saídas dos prelos da Imprensa Portuguesa do Porto: a primeira, com cxlvi e 262 páginas, subordinada ao subtítulo ”Observações e críticas. Relatórios. Documentos. Edição portugueza”, e a segunda, ”2.ª edição portugueza melhorada e accrescentada”, com 542 páginas, na qual os autores responderam de forma desenvolvida às críticas vindas, sobretudo, dos meios universitários de Coimbra, da imprensa especializada alemã (”As criticas tudescas”) e dos peritos estrangeiros consultados pela defesa, designadamente Husemann, Dragendorff, Stevenson e Lewin. Entre os capítulos figuram a discussão do estado de conservação da urina e das vísceras de Mário, o emprego do álcool amílico como solvente nos métodos de extracção dos alcalóides, a defesa das reacções utilizadas para definir a narceína, a polémica sobre a hipótese das ptomaínas e a transcrição integral dos relatórios toxicológicos. O processo que está na origem desta publicação — conhecido como ”Crime da Rua das Flores” — opôs a comissão pericial portuense ao Dr. Vicente Urbino de Freitas (1849–1913), médico natural do Porto, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em 1875 e professor de fisiologia na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, autor de trabalhos sobre a lepra. Casado em 1877 com Maria das Dores Basto Sampaio, viu sucederem-se na família da mulher várias mortes em circunstâncias suspeitas, em particular as do seu cunhado José António de Sampaio Júnior e a do sobrinho Mário Guilherme Augusto de Sampaio, falecido a 2 de Abril de 1890. As análises toxicológicas conduzidas no Laboratório Municipal do Porto sob a direcção de Ferreira da Silva detectaram nas vísceras e na urina do menor concentrações elevadas de morfina, narceína e delfinina, atribuindo a morte a envenenamento por alcalóides do ópio. Pelo acórdão de 1 de Dezembro de 1893 do Tribunal Criminal de S. João Novo, Urbino de Freitas foi condenado a oito anos de prisão maior, a cumprir na Penitenciária de Lisboa, seguidos de degredo para Angola; concluído o cumprimento parcial deste em Luanda, exilou-se no Brasil, regressando ao Porto em 1913 com o intuito de reabrir o processo, morrendo poucas semanas depois. A obra teve repercussão nacional e internacional considerável, expondo o primeiro grande caso médico-legal português e fundadora da toxicologia forense em Portugal enquanto disciplina autónoma. Constitui, por isso, documento de referência incontornável para a história da medicina-legal, da química analítica e da prática judicial portuguesa no final do século XIX, e é amiúde estudada em conjunto com a transcrição taquigráfica das sessões do julgamento publicada no mesmo ano por António La-Grange (”Audiências de Julgamento do Dr. Urbino de Freitas”, Porto, Tipografia Artur José de Sousa & Irmão, 1893, 624 pp.). Valorizado com dedicatória do autor no anterrosto. Encadernação com lombada em pele. Lombada nervurada com sinais de desgaste. Miolo limpo.