Bidspirit auction | Botto, Antonio - AS CANÇÕES.


Botto, Antonio - AS CANÇÕES. 2 vols. 1922 e 1956. - Duas edições das célebres ”Canções” do grande poeta, a saber: Botto, Antonio - CANÇÕES. SEGUNDA EDIÇÃO MUITO AUGMENTADA COM UM RETRATO DO AUCTOR E PALAVRAS DE TEIXEIRA DE PASCOAES. Lisboa. Olisipo Sociedade Editora. 1922. 74 pp. não num. 23 cm x 16 cm. B. Célebre segunda edição, muito ”augmentada”, do livro maior de António Botto (1897–1959) e uma das obras mais escandalosas e marcantes do modernismo português, saída sob a chancela da Olisipo — a editora fundada por Fernando Pessoa, que foi simultaneamente o seu principal promotor e o responsável por esta edição. À primeira edição, de 1921, prefaciada por Teixeira de Pascoaes, sucede esta de 1922, profundamente alargada e enriquecida com um retrato do autor em fototipia de bromuro de prata e com palavras do mesmo Pascoaes, na qual a assunção explícita do amor no masculino atingiu uma franqueza inédita nas letras portuguesas. Sob uma aparente simplicidade — versos breves, de andamento dramático —, a obra dá voz a um desejo masculino confessado sem rodeios, então invulgar e decisivo para a afirmação de uma poética do corpo na lírica portuguesa. Foi esta precisa edição que desencadeou, em 1923, a tremenda polémica da chamada ”literatura de Sodoma”: a obra foi apreendida pela polícia — a par de ”Sodoma Divinizada” de Raul Leal e de ”Decadência” de Judite Teixeira —, um grupo de estudantes católicos, com Pedro Teotónio Pereira e Marcello Caetano entre eles, dirigiu aos poderes constituídos um manifesto reclamando a sua condenação, e Botto viu-se consagrado como poeta maldito, recusando sempre retratar-se. Em sua defesa se ergueram Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Raul Leal e outros, tendo Pessoa publicado nesse mesmo ano, na revista ”Contemporânea”, o ensaio ”António Botto e o Ideal Estético em Portugal”, em que o aclamava como o único poeta português verdadeiramente esteta. Reconhecido por Jorge de Sena como uma espécie de semi-heterónimo de Pessoa, e mais tarde traduzido para inglês pelo próprio Pessoa em 1930, Botto deixou nas ”Canções” a obra que o celebrizou e que continuaria a rever e a ampliar até ao fim da vida. Documento fundamental da história do modernismo, da Olisipo pessoana e da afirmação da temática homoerótica na literatura portuguesa, esta segunda edição de 1922 é peça de grande raridade e das mais disputadas pelos bibliófilos e estudiosos de Pessoa e do seu círculo. Conserva o retrato de Botto na abertura, que costuma faltar em muitos exemplares. Assinatura de posse na folha de rosto. Capas de brochura com picos de acidez. Restauro recente na lombada. — AS CANÇÕES DE ANTÓNIO BOTO. Lisboa. Livraria Bertrand. 1956. 538 pp. 19 cm x 12 cm. B. «Nova edição definitiva». Numerada e rubricada pelo autor em curioso selo. Obra fundadora da poesia abertamente homoerótica em língua portuguesa e centro de uma das maiores polémicas literárias do modernismo português, ”Canções” (1921) [vide supra] surge aqui na sua redacção definitiva — a última que o próprio autor reviu e organizou. Ao longo de quase três décadas, o poeta não deixou de refazer o livro, acrescentando, suprimindo e reordenando poemas, e oscilando entre o título primitivo e o de ”As canções de António Botto”, de modo que cada edição vale como um estado autónomo do texto. António Botto (1897-1959) nasceu na Concavada, concelho de Abrantes, e cedo se fixou em Lisboa, onde foi ajudante de livraria e funcionário público — servindo, em 1924-1925, na administração colonial em Angola. Ligou-se ao modernismo e ao círculo de Pessoa, com quem colaborou. O assumir abertamente da homossexualidade granjeou-lhe perseguição e, por fim, o afastamento da função pública. No entanto, o seu talento granjeou-lhe também encomendas do próprio Estado Novo, sobretudo obras didácticas infantis como ”O Livro das Crianças” (1944), aprovado pelo próprio Cardeal Cerejeira. A par da poesia, Botto cultivou também o conto e o teatro, deixando títulos como ”Cartas que me foram devolvidas” (1932), a peça ”Alfama” (1933) e ”Os contos de António Botto” (1942). Exilado no Brasil, morreu no Rio de Janeiro, vítima de atropelamento.