Bidspirit auction | [FONTISMO; ULTIMATO BRITÂNICO; CAMINHOS DE
[FONTISMO; ULTIMATO BRITÂNICO; CAMINHOS DE FERRO; DESIGN] 5 CARTAZES DE AFIXAÇÃO PARISIENSES — POLÉMICA DAS ACÇÕES DA REAL COMPANHIA DOS CAMINHOS DE FERRO. c. 1890-1891. 120 cm x 83 cm [os maiores]. - Invulgar conjunto de cartazes de afixação pública impressos em Paris em 1890, no decurso da campanha agressiva então movida na capital francesa contra a subscrição das novas obrigações dos caminhos-de-ferro portugueses. Em composições tipográficas de grande aparato, pergunta-se se a operação não constituirá um ”Emprunt Portugais Clandestin”, acusa-se o Governo Português de tentar ”s'emparer de votre argent” e exorta-se o aforrador francês: ”Ne souscrivez pas aux Obligations des Chemins de fer Portugais sans connaître la brutale Spoliation”. A campanha explorava habilmente o momento: escassas semanas antes, a 15 de Abril de 1890, falhara estrondosamente em Paris a colocação directa de um empréstimo do Estado português — no rescaldo do Ultimato Britânico de Janeiro e da crescente desconfiança dos mercados perante as finanças nacionais —, pelo que a emissão ferroviária é denunciada nestes cartazes como expediente para obter, por via travessa, ”l'argent que vous lui avez refusé”. No centro da contenda estava a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, fundada em 1860 por D. José de Salamanca y Mayol (1811-1883) e largamente dominada, desde a origem, por capital e administração franceses. Um dos cartazes, dedicado às vítimas dos ”Intérêts Français engagés dans cette Entreprise”, evoca a assembleia de portadores reunida em Lisboa a 30 de Julho de 1884, sob a presidência do Governador Civil: os 17.000 votos dos accionistas franceses, representados por procuração, teriam sido declarados nulos, prevalecendo os 3.500 votos do grupo português efectivamente presente, que de imediato votou a destituição da administração de Paris e a transferência da sede social para Portugal — golpe preparado em segredo que a própria imprensa portuguesa, segundo o cartaz, baptizou de ”Embuscada”. A historiografia confirma a viragem: Ângela Salgueiro situa nas assembleias gerais extraordinárias de 13 de Setembro de 1884 e de 28 a 30 de Março de 1885 a ruptura que pôs termo ao modelo de gestão franco-português e consagrou o controlo nacional da empresa, então gravitando na órbita do grupo financeiro do futuro Marquês da Foz (Salgueiro, 2008). Vistos à distância, estes cartazes — ephemera urbana de sobrevivência raríssima e de alta importância para a história do design e da tipografia —, que remetem o leitor para os números do jornal ”Le XIXe Siècle” de 17, 18 e 19 de Julho de 1890 — documentam o azedume da praça de Paris às vésperas do desastre: a Companhia Real entraria em ruptura com os seus credores, desfecho selado pelo convénio de 1894, e o próprio Estado português decretaria a bancarrota parcial de 1892. Testemunho de primeira ordem da guerra de opinião travada nos muros de Paris em torno do crédito português e do modo como a questão dos caminhos-de-ferro se tornou, em 1890, um dos casos maiores das relações financeiras luso-francesas. Bibliografia auxiliar: Salgueiro, Â. (2008). A Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses 1859-1891. Tese de Doutoramento. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.