Bidspirit auction | Vieira, Affonso Lopes - AO


Vieira, Affonso Lopes - AO SOLDADO DESCONHECIDO (MORTO EM FRANÇA). Lisboa. Imp. Libanio da Silva. 1921. 1 bi-fl. 25,7 cm x 19,5 cm. - Folheto de grande interesse histórico-literário: a primeira edição, em folha única dobrada, do poema de Afonso Lopes Vieira dedicado ao Soldado Desconhecido morto em França, posto à venda em Março de 1921 a favor de um órfão da guerra. Foi produzida no contexto da trasladação dos corpos de dois Soldados Desconhecidos — um trazido da frente de Flandres, onde combateu o Corpo Expedicionário Português, e outro do teatro de operações de Moçambique — foram trasladados, em grandioso cortejo através de Lisboa e depois de Leiria, até à Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha, consagrada a partir de então como panteão nacional dos militares mortos na Grande Guerra. O monumento seria inaugurado apenas inaugurado definitivamentea 9 de Abril de 1924, com e respectivo acendimento da ”Chama da Pátria”, relembrando a data fatídica da Operação Georgette lançada contra as posições portuguesas no rio Lys. Esta folha publicada por Affonso Lopes Vieira tornou-se célebre por circunstância singular — a polícia mandou apreender a edição dias após a sua publicação, considerando que certos versos, nomeadamente a alusão à «imensa presença acusadora e aterradora / para quem te exportou como um animal», feriam os interesses do Exército e da pátria na sua participação na Grande Guerra. O próprio poeta foi conduzido ao Governo Civil de Lisboa e longamente interrogado, episódio que suscitou vasta reacção na imprensa da época — «A Época» noticiou a apreensão a 19 de Março, e «O Século», a 23 de Março, relatou a diligência policial junto da residência do pai do poeta, em Leiria, para recolha de exemplares ainda em seu poder. Lopes Vieira (Leiria, 1878), figura maior do lirismo nacionalista português, respondeu ao episódio com serenidade cívica, recusando dele fazer «reclamo» político, mas o incidente ficou como um dos episódios mais debatidos da história da censura literária portuguesa da I República. Folha em muito bom estado. Peça de grande raridade, dada a apreensão policial da tiragem pouco depois da sua distribuição, o que reduziu drasticamente o número de exemplares sobreviventes — praticamente ausente do mercado alfarrabista, sendo hoje conhecida sobretudo através de referências bibliográficas e do episódio de censura que a rodeou. Peça de colecção.